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·9 min de leitura·IA, Brasil, Dados, Pesquisa

O boom de adoção de IA no Brasil em números públicos: o que IBGE, Bain, Gartner e ANPD realmente dizem

A indústria brasileira saltou de 16,9% para 41,9% de adoção de IA em dois anos. Os mesmos datasets públicos não falam quase nada sobre a fundação que esses modelos estão lendo. Um passeio pelo que está medido, o que está faltando, e o que isso implica para 2026.

Gabriel Fernandes
Gabriel Fernandes
Consultor de IA e Dados
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Em dois anos, o percentual de empresas industriais brasileiras usando inteligência artificial saltou de 16,9% para 41,9%. O IBGE publicou esse número em setembro de 2025 na PINTEC Semestral. É um pulo de 163% em vinte e quatro meses, do tipo de curva que deixa consultor e fornecedor de software muito feliz.

Nos mesmos dois anos, quase nada mudou na forma como a empresa brasileira típica trata os dados que esses sistemas de IA estão lendo.

Esse texto é uma tentativa de olhar o que as estatísticas públicas realmente dizem sobre adoção de IA no Brasil, onde está a distância entre ambição e capacidade, e o que essa distância vai custar nos próximos dois anos. As fontes estão listadas no fim; tudo o que está citado aqui é público.

Os números de adoção

Seis medições independentes, com metodologias diferentes, chegaram ao longo de 2025 à mesma conclusão: empresa brasileira adotou IA mais rápido do que quase qualquer outro mercado fora do eixo de tecnologia dos Estados Unidos.

A PINTEC Semestral 2024 do IBGE, divulgada em setembro de 2025, mostrou que 41,9% das empresas industriais com 100 ou mais funcionários estavam usando IA em 2024, contra 16,9% em 2022. O número absoluto subiu de 1.619 empresas para 4.261. As áreas de aplicação mais frequentes foram Administração (87,9% dessas empresas), Comercialização (75,2%) e Desenvolvimento de Projetos de Produtos, Processos e Serviços (73,1%).

Adoção de IA na indústria brasileira

Percentual de empresas industriais com 100 ou mais funcionários usando IA

202216.9%
202441.9%
IBGE PINTEC Semestral 2024 (publicação de setembro de 2025)

O estudo da Bain para a América do Sul, do final de 2025, colocou em 25% o percentual de empresas brasileiras com pelo menos um caso de uso de IA em produção, mais do que o dobro dos 12% registrados um ano antes. Sessenta e sete por cento dos executivos ouvidos disseram que IA era prioridade estratégica para o ano. O relatório de 2025 da Microsoft sobre PMEs no Brasil apontou que 74% das micro, pequenas e médias empresas brasileiras já usam IA de alguma forma no dia a dia. A pesquisa de maturidade digital do Sebrae em 2025 mostrou 35% das micro e pequenas empresas usando IA especificamente para analisar dados e ganhar eficiência operacional. A IBM, em parceria com a Morning Consult, em outra pesquisa com mais de mil executivos, viu que 78% das empresas brasileiras pretendem ampliar os orçamentos de IA até o fim de 2025.

A leitura direta é simples: tem adoção real de IA acontecendo, em ritmo acima da média global. O Brasil não está atrasado em IA do jeito que ficou atrasado em cloud ou em modernização de warehouse uma década atrás. A pergunta interessante, que esses mesmos estudos não respondem, é em cima de quê esses modelos estão rodando.

Como é a fundação

O mercado brasileiro de serviços de TI atingiu US$ 17,31 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 29,94 bilhões em 2030, com taxa composta anual de 11,57%, segundo a Mordor Intelligence. O mercado de TI total está em US$ 67,8 bilhões, o que coloca o Brasil em décimo lugar no mundo e na liderança isolada da América Latina, com 38,4% do mercado da região, segundo a ABES e a IDC. Só a computação em nuvem cresceu 25% em 2025, acima da média global de 18%.

São números macro saudáveis, e que escondem a distribuição real de maturidade. A mesma PINTEC do IBGE que mostrou IA em alta também registrou que a taxa geral de inovação industrial caiu para 64,4% em 2024, terceiro ano seguido de queda desde 2021, quando estava em 70,5%. A indústria brasileira como um todo está inovando menos, não mais, mesmo com o grupo de IA crescendo.

A pesquisa da Bain é mais direta sobre a diferença de maturidade dentro do próprio grupo que adotou IA. O estudo apontou que 72% das empresas brasileiras que adotaram IA estão em estágio inicial ou experimental. A adoção é ampla. A maturidade é rasa. São os dois achados que deveriam preocupar quem está comprando e quem está vendendo nesse mercado.

Maturidade dentro das empresas brasileiras que adotaram IA

Como se divide a maturidade nas empresas que já têm pelo menos um caso de uso

72%
28%
  • Iniciante / experimental72%
  • Em produção28%
Bain, relatório de IA da América do Sul, 2025

A taxa de fracasso, em números

A pesquisa internacional sobre resultado de projeto de IA não fica mais animadora quanto mais a gente lê.

O Gartner, em pesquisa com 782 líderes de infraestrutura e operações feita entre novembro e dezembro de 2025, apontou que só 28% dos casos de uso de IA dão certo de verdade e batem a expectativa de ROI. Outros 20% fracassam direto. Os 52% do meio entregam valor parcial, o que na prática quer dizer que consomem orçamento e produzem resultado inconclusivo. Outro achado do Gartner, repetido na pesquisa de gestão de dados de 2025, coloca em 85% a fatia de modelos e projetos de IA que fracassam por dado de má qualidade ou por falta de dado relevante. Uma pesquisa de 2024 do Gartner com 248 líderes de gestão de dados viu que 63% das organizações ou não têm as práticas certas de gestão de dados para IA, ou não sabem ao certo se têm.

O Gartner previu que, até o fim de 2025, 30% dos projetos de IA generativa seriam abandonados depois da prova de conceito, por dado de má qualidade, controle de risco inadequado, custo cada vez maior ou falta de clareza sobre o valor para o negócio. Fontes secundárias de analistas em 2026 apontaram a taxa real de abandono pós-PoC acima dos 50%.

Resultados de projetos corporativos de IA

Como se dividem os casos de uso de IA por resultado de ROI

28%
52%
20%
  • Sucesso pleno e ROI atingido28%
  • Valor parcial52%
  • Falha completa20%
Pesquisa Gartner com 782 líderes de infraestrutura e operações, novembro a dezembro de 2025

Pegue esses números e jogue em cima da curva brasileira de adoção. Se 4.261 empresas industriais brasileiras estavam rodando IA em 2024, e a taxa internacional de falha fica em algum ponto entre 50% e 85%, dependendo de como você conta, o número implícito de iniciativas de IA travadas ou abandonadas só dentro da indústria brasileira já está na casa dos milhares. Não é projeção. É inventário.

O gigante adormecido da LGPD

A outra parte do contexto que o dado público deixa clara é o risco regulatório que a maioria das empresas não está colocando na conta.

A Lei Geral de Proteção de Dados está em vigor desde 2020. A fiscalização da ANPD foi notavelmente branda: até agosto de 2024, foram aplicadas só 18 sanções administrativas, das quais apenas duas foram multas, ambas contra a mesma microempresa (Telekall Infoservice), somando R$ 14.400. Nenhuma empresa privada foi multada por violação da LGPD no ano inteiro de 2024. Cinco processos sancionadores foram encerrados em 2024, todos contra órgãos públicos (Ministério da Saúde, INSS, Secretaria de Educação do Distrito Federal e Secretaria de Assistência Social de Pernambuco).

Para efeito de comparação, União Europeia, Reino Unido, Estados Unidos, Argentina e Austrália juntas aplicaram US$ 1,7 bilhão em multas de proteção de dados em 2024. O Brasil aplicou zero.

Multas de proteção de dados em 2024

Total aplicado em multas por violações de proteção de dados, em bilhões de dólares

UE + Reino Unido + EUA + AR + AU somadas1.7 bi
Brasil (ANPD)0 bi
Compilação de fiscalização da ANPD e trackers globais (DLA Piper, IAPP), 2024

Essa diferença está diminuindo. A Deliberação CD-10/2025 da ANPD criou multas diárias por descumprimento de medidas cautelares. Setores como telecomunicações e fintechs estão sob olhar cada vez mais atento. Os pareceres jurídicos ao longo de 2025 convergem na expectativa de que os próximos dois anos vão trazer as primeiras sanções financeiras sérias contra empresas privadas brasileiras. Quem está rodando IA em cima de warehouses que não consegue auditar por inteiro é quem fica mais exposto quando esse ciclo de fiscalização engrenar.

O recorte do agronegócio

Vale uma seção separada porque os números são incomuns.

O agronegócio brasileiro contribuiu com R$ 3,20 trilhões para o PIB em 2025, o equivalente a 25,13% da economia nacional, contra 22,9% em 2024, segundo o CEPEA-Esalq/USP e a CNA. Só a pecuária cresceu 32,55% no ano. É um setor grande, que cresce rápido e tem mais capital em caixa do que a maioria das indústrias brasileiras.

Participação do agronegócio brasileiro no PIB

Produção agropecuária total como percentual da economia nacional

202422.9%
202525.1%
CEPEA-Esalq/USP e CNA, 2025

Do lado da adoção digital, 84% dos produtores brasileiros entrevistados dizem usar pelo menos uma tecnologia digital no sistema de produção, segundo pesquisa com 504 produtores publicada na Agriculture (MDPI). Máquina agrícola equipada com IA já está em operação em cerca de 10 a 15% das fazendas comerciais no Brasil, segundo levantamento da Farmonaut em 2025. O subsetor de agricultura inteligente deve crescer de US$ 404 milhões em 2024 para US$ 795 milhões em 2033, segundo o IMARC Group. O BNDES estimou que uma integração mais completa de IoT na agricultura brasileira poderia gerar de US$ 50 a US$ 200 bilhões de impacto econômico por ano.

O detalhe curioso é que a maior parte desse dado digital, apesar do percentual alto de adoção, não está consolidada. Um produtor que roda telemetria da John Deere, NDVI por satélite de uma assinatura paga de clima, dado de ERP no TOTVS e posição em futuros na B3 tem quatro fluxos de dados em paralelo que ninguém no time tem preparo para juntar numa única camada de decisão. A adoção é ampla. Falta a integração. Escrevi sobre esse caso em detalhe em por que o agronegócio brasileiro precisa de um data concierge.

O que isso aponta para 2026 e 2027

O dado público conta uma história consistente. As empresas brasileiras estão comprando IA e ferramentas digitais mais rápido do que constroem a fundação que precisariam para usar essas ferramentas bem. Esse descompasso vai se resolver de uma de duas formas nos próximos dois anos.

No primeiro cenário, a fundação é construída. Uma parte das empresas brasileiras investe no warehouse, no catálogo, na definição de métricas e no trabalho de governança que transforma iniciativa de IA em retorno que dá pra medir. A taxa de sucesso de 28% do Gartner pode subir para 35 ou 40% dentro desse grupo. E essa vantagem vai se acumulando sobre o resto do mercado.

No segundo cenário, a fundação continua quebrada e as iniciativas de IA travam. A taxa de abandono do Gartner aparece nos conselhos brasileiros ao longo de 2026 e 2027, conforme o ciclo de orçamento pós-PoC termina e o CFO vai atrás de resultado que não está lá. As médias empresas são as mais expostas, porque não têm gente sênior por dentro para diagnosticar o problema antes de o orçamento acabar.

Os dois cenários estão rodando em paralelo agora, em empresas diferentes. A pergunta para qualquer executivo é qual deles está acontecendo na empresa dele, e ele provavelmente ainda não sabe, porque iniciativa de IA não falha com estardalhaço: falha no silêncio.

Se a sua empresa tem uma iniciativa de IA rodando e você não sabe em qual cenário está, o diagnóstico é mais rápido do que o build. Uma conversa de 30 minutos pra olhar o que você tem hoje e, se valer a pena, uma auditoria de 1 a 2 semanas depois.

Auditar a fundação

Fechamento

O dado público não deixa dúvida sobre o boom de adoção nem sobre a taxa de falha. O dado que ninguém publica é como está a fundação dentro de cada empresa, porque produzir esse dado dá trabalho. Precisa de alguém caminhando pelo warehouse, mapeando as métricas, conferindo o lineage e escrevendo o que de fato é verdade.

É esse trabalho que decide qual cenário acontece. Os números acima são o inventário. O trabalho é todo o resto.

Leituras relacionadas

Para a leitura estratégica da fundação que falta, veja arrumar os dados antes de adotar IA generativa. Para o contexto do mercado brasileiro, veja consultoria de dados no Brasil. Para o caso prático de empresas que já se comprometeram com a virada para IA mas ainda não começaram o trabalho de fundação, veja empresas em transição para IA precisam de um data concierge.

Fontes

IBGE PINTEC Semestral 2024 (publicação de setembro de 2025): IBGE Agência de Notícias; queda na taxa de inovação industrial: IBGE relatório de inovação 2024.

Estudo Bain para a América do Sul 2025: press release da Bain.

Relatório Microsoft 2025 sobre PMEs brasileiras: Microsoft News Center Brasil.

Pesquisa de maturidade digital do Sebrae 2025: Agência Sebrae.

Pesquisa IBM e Morning Consult sobre investimento em IA: cobertura da Exame.

Pesquisa Gartner sobre infraestrutura, operações e ROI de IA, divulgação de abril de 2026: press release do Gartner; readiness de dados para IA do Gartner: pesquisa de data readiness do Gartner; previsão Gartner de abandono de GenAI: press release do Gartner sobre GenAI.

Estudo ABES e IDC sobre o mercado brasileiro de TI 2025: relatório ABES; Mordor Intelligence sobre serviços de TI 2025-2030: Mordor Intelligence.

Dados de fiscalização da ANPD: TI Inside (cinco anos de LGPD); retrospectiva 2024 da Mayer Brown.

PIB do agronegócio brasileiro e adoção digital: relatório de PIB 2025 da CNA Brasil; estudo MDPI Agriculture sobre adoção digital; mercado brasileiro de agricultura inteligente IMARC; estatísticas de IA na agricultura Farmonaut.

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